sábado, 8 de outubro de 2011
Follow the light
Desde cedo, percebia-se que o garoto tinha algo de especial. Não o tipo de especial que todo pai fica contando vantagem, dizendo que o seu filho começou a andar mais cedo do que os outros, ou mostrava o dedo do meio pras pessoas de que não gostava. Não, não isso. Ele tinha um dom especial. O dom da curiosidade.
Aliás, "dom" provavelmente não é a palavra certa a ser usada agora. A verdade as vezes pode ser uma coisa bastante dolorosa, e a curiosidade só faz as pessoas chegarem cada vez mais perto dela. Por outro lado, qualquer um com uma ânsia um pouco maior por conhecimento irá se destacar perante a sociedade por não ser tão alienado e programado quanto os restante. O único problema é descobrir que a sociedade em si é uma farsa, e que você na verdade não é superior a ninguém, só está numa agonia aguda e constante por descobrir que sua vida é uma mentira. É como dizem por aí: a curiosidade matou o gato, o rato, o cachorro e a paz de espírito de muita gente (incluindo todos os personagens de terror que abriram aquela maldita porta do porão da casa assombrada). O "dom", portanto, é uma questão de ponto de vista.
Mas prossigamos.
Com 4 anos, perguntava por que as coisas caiam. "Por que as pessoas morrem?", indagava. Tinha curiosidade em saber por que um brinquedo era tão caro em uma loja de departamentos, mas tão barato no camelô na frente da mesma loja. Também achava curioso o fato de a maioria das pessoas dar preferência ao brinquedo mais caro, mesmo sabendo que os dois são praticamente iguais. No começo ele perguntava aos pais, na ânsia por uma resposta satisfatória, ou que pelo menos fizesse sentido. Mas tudo o que eles ofereciam eram respostas vagas e incertas, ou um simples "cala a boca e vai brincar" quando perdiam a paciência. Ele também não entendia aquilo.
Com 9 anos, deixou de entender os próprios pais. Aparentemente, o homem da família tinha perdido seu emprego e estava sem uma fonte de renda a curto prazo, o que foi motivo suficiente para a mãe pedir o divórcio. Os votos não diziam "na alegria e na tristeza"? Estranho.
Ficou morando só com o pai durante mais alguns anos, assistindo ele se deteriorar cada vez mais, dia após dia, procurando um novo meio de vida, uma nova forma de conseguir conforto e sustentabilidade na sociedade. O garoto sugeriu que se mudassem pro campo, fizessem uma pequena horta, criassem alguns animais e passassem a viver disso. Mais uma vez, só recebeu como resposta um sorriso cansado e um cafuné forte demais para ser confortável. As questões só aumentavam, junto com a fome e a vontade de ter um videogame.
Eventualmente, ele ganhou seu videogame. A mesa também foi ficando mais farta. Ganhou inclusive uma mãe nova, apesar de suspeitar que a causa do aumento abrupto da qualidade de vida tenha sido ela. Resolveu mais uma vez tentar perguntar pro seu pai o que tinha acontecido. Levou um pequeno esporro, voltou pro seu quarto e foi jogar.
Um "dom" é algo que nem sempre se manifesta no tempo que deveria. Muitas pessoas acabam vivendo uma vida inteira até de descobrir que seu dom é a música, por exemplo.
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