sábado, 29 de outubro de 2011

As vezes eu paro, penso, e começo a ficar muito preocupado com o que eu tô fazendo. Não que eu esteja necessariamente fazendo algo ruim ou errado normalmente, mas pra outras coisas - mais especificamente o meu carma -, eu pareço estar cometendo o pior dos sacrilégios contra a humanidade, e preciso ser punido.

Veja bem, eu sou o Rei do Azar. Eu sei, todo mundo se acha o rei do azar as vezes, não tenho o direito de sair afirmando isso só porque eu tive alguns dias ruins. O problema é que não sou só eu, todos os meus amigos que conviviam comigo diariamente durante todo o ensino médio afirmaram com veemência, durante três anos consecutivos, que eu era definitivamente o cara com mais azar ali por aquelas bandas. A cada coisa que acontecia ou a cada dia muito ruim que eu tinha (o que era bastante frequente) eles ficavam mais certos disso, e eu mais conformado de que isso iria acontecer durante o resto da minha vida.

Todo mundo fala nessa Lei de Murphy, que diz que se alguma coisa pode dar errado, ela dará. Eu nunca acreditei nisso, sempre procurei alguém que me explicasse por que ele promoveu tais falácias, ou algum livro que conseguisse explanar a teoria de um modo que eu conseguisse aceitar. Eu nunca achei, e por isso sempre considerei esse tal de Murphy um cara muito filho da puta que praguejou toda a humanidade por puro prazer. E tal praga flutua pelo éter até hoje, afetando mais e mais infelizes a cada dia.

Entretanto, parece que a tal da lei de Murphy se aplica com mais fervor em pessoas que não conseguem acreditar que isso é verdade - vide eu durante o ensino médio. As coisas que aconteciam comigo eram tão improváveis, tão dignas de personagens de mangá realmente azarados, que praticamente se tornaram lendas, e eu já começava até a me gabar das histórias e contar como se fossem feitos surpreendentemente difíceis. E de certa forma eram.

Pra quem conhece, eu era tipo esse cara aí

Tomemos por exemplo a vez em que roubaram meu sorvete. Este era mais um dia comum durante minha pacata adolescência, e nada parecia impedir isso de continuar assim. Éramos três; eu, Marcos e Gabriel, a caminho da minha casa depois da aula pra fazer algo que eu não consigo lembrar o que era, mas vamos considerar que seja ler livros, discutir Nietzsche e estudar para o vestibular. Infelizmente, Belém tem a capacidade de rivalizar com o inferno em termos de calor e pessoas feias por metro quadrado, então parei pra comprar um delicioso e refrescante sorvete de morango®. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Desde que fiquei sabendo que a Marvel lançou a proposta de fazer um filme dos Vingadores - e fazer um filme individual de cada integrante para contextualizar tudo - eu fiquei bastante empolgado. Afinal, eu já tinha visto os dois filmes do Iron Man, e sabia do atual potencial da Marvel pra fazer bons filmes baseados nos seus quadrinhos. Foi-se o tempo onde as salas de cinema ficavam lotadas de crianças, seus respectivos pais e alguns caras babões de 30 anos que moravam com a mãe para ver algum filme de super-herói. Hoje as crianças cresceram, os babões são grandes empresários (apesar de ainda morarem com a mãe), e há toda uma nova geração de fãs dos quadrinhos e seus super-heróis. Já se tem mais cuidado com os filmes, os fãs precisam ser agradados, ao contrário de como as coisas eram nos hilários anos 90.

Melhor que muita comédia por aí







sábado, 8 de outubro de 2011

Follow the light


Desde cedo, percebia-se que o garoto tinha algo de especial. Não o tipo de especial que todo pai fica contando vantagem, dizendo que o seu filho começou a andar mais cedo do que os outros, ou mostrava o dedo do meio pras pessoas de que não gostava. Não, não isso. Ele tinha um dom especial. O dom da curiosidade.

Aliás, "dom" provavelmente não é a palavra certa a ser usada agora. A verdade as vezes pode ser uma coisa bastante dolorosa, e a curiosidade só faz as pessoas chegarem cada vez mais perto dela. Por outro lado, qualquer um com uma ânsia um pouco maior por conhecimento irá se destacar perante a sociedade por não ser tão alienado e programado quanto os restante. O único problema é descobrir que a sociedade em si é uma farsa, e que você na verdade não é superior a ninguém, só está numa agonia aguda e constante por descobrir que sua vida é uma mentira. É como dizem por aí: a curiosidade matou o gato, o rato, o cachorro e a paz de espírito de muita gente (incluindo todos os personagens de terror que abriram aquela maldita porta do porão da casa assombrada). O "dom", portanto, é uma questão de ponto de vista.

Mas prossigamos.

Com 4 anos, perguntava por que as coisas caiam. "Por que as pessoas morrem?", indagava. Tinha curiosidade em saber por que um brinquedo era tão caro em uma loja de departamentos, mas tão barato no camelô na frente da mesma loja. Também achava curioso o fato de a maioria das pessoas dar preferência ao brinquedo mais caro, mesmo sabendo que os dois são praticamente iguais. No começo ele perguntava aos pais, na ânsia por uma resposta satisfatória, ou que pelo menos fizesse sentido. Mas tudo o que eles ofereciam eram respostas vagas e incertas, ou um simples "cala a boca e vai brincar" quando perdiam a paciência. Ele também não entendia aquilo.

Com 9 anos, deixou de entender os próprios pais. Aparentemente, o homem da família tinha perdido seu emprego e estava sem uma fonte de renda a curto prazo, o que foi motivo suficiente para a mãe pedir o divórcio. Os votos não diziam "na alegria e na tristeza"? Estranho.

Ficou morando só com o pai durante mais alguns anos, assistindo ele se deteriorar cada vez mais, dia após dia, procurando um novo meio de vida, uma nova forma de conseguir conforto e sustentabilidade na sociedade. O garoto sugeriu que se mudassem pro campo, fizessem uma pequena horta, criassem alguns animais e passassem a viver disso. Mais uma vez, só recebeu como resposta um sorriso cansado e um cafuné forte demais para ser confortável. As questões só aumentavam, junto com a fome e a vontade de ter um videogame.

Eventualmente, ele ganhou seu videogame. A mesa também foi ficando mais farta. Ganhou inclusive uma mãe nova, apesar de suspeitar que a causa do aumento abrupto da qualidade de vida tenha sido ela. Resolveu mais uma vez tentar perguntar pro seu pai o que  tinha acontecido. Levou um pequeno esporro, voltou pro seu quarto e foi jogar.

Um "dom" é algo que nem sempre se manifesta no tempo que deveria. Muitas pessoas acabam vivendo uma vida inteira até de descobrir que seu dom é a música, por exemplo.